sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Tatuagens


Todas as noites faço janelas no espaço
Meu corpo é o guardião do tempo
O mundo vai tomando o que sou eu
E no tecido de mim
Jardins dos olhos teus.
Meus, são os silêncios
Eternos vãos inabitáveis
Marcados por passos
Gravados por nãos
Sons desintegrados
Poeira, poeira,
Poeira que tudo leva
E nos deixa assim
engolindo abismos
com as mãos soltas no vento.

Denise Magalhães

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Poeminha de um amor noturno

Mansa a tua pele negra
Manso o teu olhar escuro
Mansa a minha curva em sua direção
A procura de seus braços
Pra amansar meu coração

Denise Magalhães

domingo, 25 de outubro de 2009

Desencontro

Percorro a procura das ruas
e minha busca é você
Percorro as idades das ruas
e meu tempo é você
Percorro o destino das ruas
e meu caminho é você
Percorro o vazio das ruas
e meu deserto é você
que não encontra
as ruas nuas
as ruas tuas
que estão em mim.

Denise Magalhães
Ele: frenesi de saudade nos ares
nuvens gordas nos olhos

Eu: pulo sobre a lua minguante
ainda mais que é outono

Nós: conversinha molhada sob a coberta
madrugada no décimo quinto andar

Você: quem falou que a solidão vôa assim tão alto?


Denise Magalhães
Pela janela solitária
a tarde se vai
mansa cinza e sem céu.
Vai sem saber que é pra sempre
As tardes sempre se vão de forma definitiva.

Vai-se a tarde descolorindo o meu olhar
manso, cinza e sem céu.
A tarde e eu chovemos
o sempre que se repete

Denise Magalhães
Distração

Vi uma bolha de sabão
brincando de pegar cores
em seu corpo fino, frágil e delicado
O sorriso das crianças embalava sua dança
ora mais alta, ora mais baixa, ora quase caindo
Lá se ia a bolha colorida...colorindo
Cheia de olhinhos, de palminhas e inocência.
E eu que distraí, e não vi
quando tudo se quebrou.

Denise Magalhães

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

SINA

Gestos bruscos, carregados de fúria
Contornam seu corpo magro e ágil.
Seu olhar escuro é um beco traiçoeiro
na madrugada atroz.
Um cão raivoso espera no caminho...
Mas eu também tenho raiva
e enrosco minha alma esfomeada em você
deixando que meu corpo viciado se queime em brasa.
Assim, com um animal no cio,
me lanço na escuridão do beco incendiado.

Mas a mesma brasa da dor
é a do amor, meu bem
E eu preciso arder
prá viver
prá gemer
por você.

Essa é a minha oração.

Denise Magalhães

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Segundo Dia

Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Rspeito as oralidades.
Eu escrevo o rumor das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.
Só sei o nada aumentando.
Eu sou culpado de mim.
Vou nunca mais ter nascido em agosto.
No chão de minha voz tem um outono.
Sobre meu rosto vem dormir a noite.

Manoel de Barros ( O Livro das Ignorãças)

domingo, 19 de julho de 2009

Carta de aceitação da vida.

Gosto de andar depois da meia noite sobre o piso branco do apartamento alto, bem longe do chão. É nesta hora que eu mais flutuo e onde mais me encontro. É nesses quadrados brancos que desenho com meus passos e gestos o que sou, sendo, por enquanto, até ali, onde o sono me toma. Nesta hora dúbia fica tudo mais visível, principalmente se choveu muito, pois a chuva costuma deixar tudo mais nítido, como a mim mesma. Assim, nesta hora, meu ser se arrisca a um certo delineamento, mesmo que provisório. Bebo o que posso desse lugar, à meia noite, no meio da casa, num meio já, que sempre já é outro; que é meio e ao mesmo tempo de uma inteireza transbordante do que sou eu, ou não eu. Assim, imersa nessa solidão povoada pelo canto nostálgico de inúmeros grilos, agradeço a tudo e reverencio a vida.
Nessas horas, onde parece que tudo se distancia, posso enfim me alcançar. Vir de lá, onde as ocupações me encobrem e faço tudo o que deve ser feito, espiando em silêncio, aguardando a hora para estar nesse lugar, de mim.
Os cães latem de lá do fundo da madrugada. As palavras pululam no meu peito. Descubro minha pele e escorro pelos cantos de mim mesma. Nenhuma dor. Silêncio!
Denise Magalhães

terça-feira, 16 de junho de 2009

A Construção

Tenho passos pesados
e muitas bolhas nos pés.
É que carrego nos ombros
enormes casas vazias.
São armações pesadas,
construções que nem existem mais.
Fantasmas de cumeeiras,
caibros e ferragens
escorados em meu corpo
fincados em minha carne
como se eu fosse alvenaria.
Lá eu não vou,
apenas sinto o cheiro azedo
que exala dos escuros
vãos abandonados,
cheios de morcegos carnívoros.
À noite, sento na escada
tiro os sapatos,
e tremo.
Nem uma palavra
me diz.

Denise Magalhães

quarta-feira, 3 de junho de 2009

terça-feira, 26 de maio de 2009

O céu

Quando a noite
encontra seu norte
e o silêncio
veste a cidade nua
não sou corpo
não sou alma
sou a casa da lua
solidão iluminada
tomada de eternidade
e da lembrança tua.

Denise Magalhães

domingo, 17 de maio de 2009

sábado, 9 de maio de 2009

PARA CRIS

Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar,
não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir. Talvez
seja isto uma árvore,
ou quem sabe,
o amor.

Julio Cortázar, Cinco últimos poemas para Cris,
Salvo el crepúsculo, 1984. Tradução Sidnei Schneider, 2007

terça-feira, 5 de maio de 2009


Carta sobre a saudade:

Falam da saudade que é uma presença da ausência. Existe, pois, em mim uma saudade eterna, onde a ausência é roubada pela promessa. É que a ausência, tão presente se faz, quase não permitindo que eu sinta falta do que ela se constituiu, pois a promessa já é a presença mesma em meu ser, do que, por um milésimo de segundo, também é a ausência de minha saudade. E, quando presente, o que ausente é uma presença prometida, quase a roubar o que seja saudade, esta mais ainda assim é que não se esvai, como seria de se esperar. É que a presença, antes prometida, perde a promessa e, sendo apenas presença, é tão completa que traz consigo o abandono, objeto mesmo do que se constitui a saudade.

Denise Magalhães

sábado, 2 de maio de 2009

Quando os lábios do tempo
pousarem finalmente
sobre a pobreza de minhas palavras
Que eu possa tecer
a trama de um sentido qualquer
no tecido de minha existência
e fazer de minha carne
o esteio de um poema livre.
Por hora o espio sentenciada
no aguardo do longo e traiçoeiro beijo
que me levará.

Denise Magalhães

terça-feira, 28 de abril de 2009

Inquietude

Ah! Os sentimentos!
Outrora de contornos tão definidos
já não se guardam em suas formas
mas em tons mesclados, menos pretensiosos.
Em contrapartida não ouço nada
ou quase nada.
Tenho a idade de certas intolerâncias
As notícias são insuportáveis
E a solidão me acolhe
com suas mãos enormes e generosas.
Por enquanto disfarço bem
mas ando nua por aí,
escandalosamente exposta.
Minhas carnes tremem
As palavras me açoitam
Meus olhos queimam em brasa
Meu coração bate, que dói.
Qualquer hora dessas grito.

Denise Magalhães

domingo, 19 de abril de 2009

sábado, 18 de abril de 2009

Confessional

Só sei me desmanchar se for toda.
Não sei ser metade: um pouco eu ou não eu
Quando não me sou, o sou por inteiro
E quando me sou
Geralmente me derramo,
não sei a justa medida de ser,
ainda mais quando transbordo você.

Denise Magalhães
Aceitação


Não que eu não soubesse
que ele viria assim,
meio que brincando
e de pouso suave.

Mas não naquela noite de lua crescente
quando os vampiros preparam-se para o alimento
e as vítimas como que se estremecem.
Nem tanto pelo medo
mas pela promessa do deleite.

Então, com um sorriso de quem conhece o inferno
deixando escorrer estrelas
infinitamente dispersas
no universo silencioso
ele chegou!

Nos gestos, alegrias de quintais
Nos olhos, manhãs coloridas de crianças
Entre os dentes, um filete de sangue.

Denise Magalhães

quarta-feira, 25 de março de 2009

Vertigem

Olho minha aparência bem comportada
E vejo um rosto enfurecido
Uma cabeleira desgrenhada
Numa armação esquisita.
Olho minhas mãos envelhecendo
E vejo uma textura opaca
Veias sobressaltadas
Riscos de memórias.
Nos meus dentes escovados
Restos de minha própria carne.

Dentro de mim, esse bicho
Sempre à espreita
Rondando, faminto.
Se me distraio ele ataca.

É sempre assim,
Esses olhos de cão sobre mim,
Esse tempo sanguinário,
Essa alma insana
e essa louca
a gargalhar por onde passo,
Como morte,
como algoz,
como sentença,
em mim.

Denise Magalhães

sexta-feira, 20 de março de 2009

Carta que não sabe dizer nº 1

Serei sincera e breve neste escrito não classificado. Estarei nua e outra em cada palavra que chegue. Verterei sangue e flores azuis, mas sobreviverei. Sobre todas as coisas que já são nossas digo: um homem não poderia evitar o brilho da lua ou a correnteza dos rios. Agora me diga amor, sob seu olhar primaveril, quem sou eu? Sob o seu olhar matreiro, quem posso ser? Já não me explicito em mim mesma. Se me traduzes me fale, pois já não sei dizer de mim, do que sou ou posso ser. Meu caminho é em viés. Você me contorna enquanto espaireço por aí. Já não sei bem dizer, não sei dizer bem. As palavras são traiçoeiras, gostam de brincar de nos fazer, fogem e me desfaço, surgem e por um milésimo de segundo me tenho. Mas as palavras são frágeis, são crianças. Sou quase sempre sem palavras, mas não me importo, elas que corram atrás de mim. Eu? Eu mesma? Chego antes, como vazio, disforme, elas que me encontrem e me revelem, não preciso disso. Viver vem antes de qualquer palavra. Viver é este instante, esse passo no ar, esse entre, que escapole, salta. As palavras que me encontrem nesse já, onde vou sendo por aí. Esse é o instante que não consigo dizer, onde as palavras não chegam, e só existe viver.
Saudações vertiginosas
Denise

quarta-feira, 11 de março de 2009

sábado, 7 de março de 2009

Ah! Essas janelinhas acesas
esquadrinhando a cidade por aí.
Não demora as primeiras estrelinhas.
Nada de novo: o mesmo grito.
De manhãzinha tudo silencia.
O pão de cada dia,
a fome de toda noite.
Vidinha!

Denise Magalhães

quinta-feira, 5 de março de 2009



Automat, 1927 -Edward Hopper

O assombro


Pedras descansam em jardins abandonados
cobertas de musgos.
Ventos de outono atiçam portas e vidraças.
Segredos tremem de porões envenenados.
Entre corredores descubro:
Sou o sorriso que saiu no lugar de um grito.

Denise Magalhães
Ventania


Olhos secos de futuro
E essas árvores aí na frente
O que agarra
as garras dos gatos
tão desgarrados?

Ah! A importância!!
Onde ela está?

Quisera agarrar algo
não fosse tão perigoso
quanto nada agarrar.
Quisera o medo
evitar o acontecimento.
Pra que tanta invenção?
In-venta-ção?
Já, tudo se varre novamente.

Ah! Essa incontornável condição de se ser
Nesta terra,
Logo hoje,
A essa hora,
E com tantas árvores aí...
na frente da casa.

Denise Magalhães
Brincadeira predileta


Fogo nos cabelos
Pimenta nos pés
Riso sem dono
Furacão de doer
E nada de explicações
Nenhuma.
Nadinha:comer tudo
E se lamber.

Poço fundo
Descampado
Borboleta amarela
Urtiga, cansanção
E nada de esperança
Nenhuma.
Nadinha: picula,
Esconde-esconde,
Ciranda e roda-gigante,
Então.

Denise Magalhães

Carta Primeira: Saudação de chegada

Olá! Sou eu!
Agora que você me lê, você pode me ver, sentindo qualquer coisa ou muitas coisas. Bem, escrevo para esticar um risco entre eu e você a não sei quantos quilômetros. Para esticar não sei quantas palavras, que se alongaram para chegar até você e por isso talvez você não as compreenda. Tente formatá-las encolhendo esse traço esticado feito corda de caneta azul, bic, com tampa, que vai ao som de Path Smith e Marianne Faithfull. Talvez demore um pouco pra você compreender porque não sei quantas voltas a terra vai dar em torno de si mesma até isso chegar até você. Mas isso não é o que estou dizendo, o que estou dizendo não posso escrever, está na corda de caneta azul, esticada, no traço da tinta que sai de mim e chega até você para você arrumar, certo? Sei que você saberá o que é, eu apenas escrevo o aqui e agora, saindo sem planejar, e sai isso que você está lendo. Eu gosto de escrever assim, sem assunto ou com muitos assuntos, todos os assuntos sem dizer o que são. Pra que tantos assuntos? Basta que eu chegue até você através desse monte de palavras ermas, loucas, sei lá... sou eu enfim que estou chegando aí, assim como sou, no momento já. Quando essa folha acabar eu acabo de escrever. Meu limite é o papel, que também é meu labirinto, meu esconderijo, meu tudo e meu nada. Escrevo assim, sem compromisso com a coerência ou com uma ordem de significados. Assim sinto-me livre para deixar fluir, porque sei que você me entende, então escorro por esse papel, escorro até você, porque só sei escorrer pela vida, escorro para encharcar você do que não consigo dizer, porque não sei dizer ou porque não se pode dizer. Pois é, eu sou assim, fluida, e mudo muito, o tempo todo, às vezes sem perceber já sou outra. Ocorre que talvez eu seja um pouco de todo mundo e como é muita gente que existe em mim, deve ser por isso que eu mudo tanto, sou tantas. Então, só fica essa linha imaginária, etérea e forte que me leva a escrever.
Até mais, clandestinamente

Denise